Vídeos e áudios falsos gerados por IA já aparecem em quase metade das fraudes financeiras registradas no país, segundo levantamentos recentes.
A inteligência artificial generativa mudou a forma como golpistas atuam no Brasil. Levantamentos recentes mostram um crescimento expressivo no uso de deepfakes, vídeos e áudios manipulados que imitam vozes, rostos e movimentos de forma cada vez mais realista, aplicados em fraudes financeiras e tentativas de engano digital. Segundo dados divulgados pela Polícia Federal, o uso de deepfakes cresceu 830% entre 2024 e 2025, e ferramentas de inteligência artificial já estavam presentes em 42,5% das fraudes financeiras registradas no país nesse mesmo período. A dúvida que mais preocupa o usuário comum é direta: como reconhecer esse tipo de golpe e o que já está sendo feito para conter o problema.
Como a inteligência artificial tornou os golpes mais convincentes
Até pouco tempo atrás, mensagens fraudulentas costumavam ter erros de escrita ou um tom estranho, o que ajudava a vítima a desconfiar. Esse cenário mudou. De acordo com material publicado pelo Banco do Brasil sobre o tema, os criminosos passaram a usar ferramentas de inteligência artificial para criar mensagens bem estruturadas, com linguagem adequada e alto grau de verossimilhança, dificultando a identificação imediata da fraude.
O problema não se limita a textos. Levantamento da plataforma de verificação de identidade Sumsub, citado pela Agência Brasil, apontou que a ocorrência de deepfakes disparou no Brasil em 2025, com aumento de 126%, o que torna o país responsável por quase 40% de todos os deepfakes registrados na América Latina. Esse volume chamou atenção inclusive de órgãos de inteligência: a Agência Brasileira de Inteligência já alertou publicamente sobre o risco desse tipo de manipulação para as eleições de 2026.
A combinação entre inteligência artificial e meios de pagamento instantâneos amplia o potencial de dano financeiro. Segundo dados do Banco Central citados pelo Banco do Brasil, os prejuízos com golpes envolvendo o Pix chegaram a R$ 6,5 bilhões somente em 2025, com crescimento expressivo em relação aos anos anteriores. Falsas centrais de atendimento, clonagem de aplicativos de mensagens e pedidos urgentes de transferência estão entre as fraudes que mais se beneficiam da nova tecnologia.
Um exemplo prático desse tipo de ataque envolve vozes sintéticas de executivos ou familiares, usadas para convencer a vítima a autorizar pagamentos com urgência. Segundo análise publicada pelo TI Inside, esse tipo de golpe já aparece com frequência em processos de pagamento, contratação remota e até aprovação de transações corporativas, indo muito além do golpe tradicional aplicado a uma única pessoa.
O impacto sobre a confiança em processos digitais
O avanço dos deepfakes também afeta sistemas pensados originalmente para proteger o usuário, como a verificação por biometria facial ou de voz. Um relatório do setor de segurança digital, mencionado pelo TI Inside, identificou um aumento significativo de ataques que usam deepfake justamente em processos de verificação biométrica, onboarding digital e autenticação de usuários, fragilizando ferramentas que muitas empresas tratavam como barreira de segurança confiável. TI INSIDE
Esse cenário levou instituições financeiras e órgãos públicos a debater o tema de forma mais aberta. Durante o evento Febraban Tech, em São Paulo, especialistas do Serpro e do Banco do Brasil discutiram justamente o risco que a inteligência artificial generativa representa para a confiança digital, defendendo que a solução não pode depender apenas de tecnologia. Segundo o Serpro, o enfrentamento do problema exige combinar tecnologia, curadoria humana e experiência do usuário para reduzir a eficácia desse tipo de fraude.
Outro ponto de atenção é a falsificação de documentos digitais, que também ficou mais sofisticada com o uso de inteligência artificial. Relatórios do setor de cibersegurança apontam que criar documentos falsos convincentes deixou de exigir conhecimento técnico avançado, bastando acesso a ferramentas já disponíveis, o que amplia o número de pessoas capazes de aplicar esse tipo de golpe.
O que já está sendo feito e como o usuário pode se proteger
Diante desse cenário, bancos e empresas de tecnologia vêm reforçando sistemas de defesa baseados na própria inteligência artificial, capazes de identificar padrões de comportamento fora do normal e pequenas inconsistências típicas de conteúdo gerado artificialmente. A lógica por trás dessa estratégia é usar a mesma tecnologia empregada pelos golpistas para reconhecer os sinais que diferenciam um pedido legítimo de uma tentativa de fraude.
Para o cidadão, a orientação mais repetida por instituições financeiras é desconfiar de qualquer pedido urgente de transferência ou pagamento, mesmo quando a voz ou a imagem parecem pertencer a alguém conhecido. Confirmar a solicitação por outro canal de comunicação, como uma ligação direta para o número já salvo do contato, continua sendo uma das formas mais simples de evitar cair nesse tipo de armadilha. Bancos como o Banco do Brasil também mantêm canais específicos de atendimento 24 horas para quem identifica ter sido vítima de fraude, com orientação para agir rapidamente e reduzir o prejuízo financeiro.
O crescimento acelerado desses golpes também reforça a urgência de discussões regulatórias em andamento no Congresso Nacional sobre o uso da inteligência artificial no país, já que parte da resposta a esse problema depende de regras claras sobre responsabilidade e rastreabilidade de conteúdo gerado por IA. Enquanto essa legislação não avança, a combinação de atenção do usuário, tecnologia de defesa e canais rápidos de denúncia segue sendo a principal linha de proteção disponível contra um problema que tende a crescer junto com a própria evolução da inteligência artificial generativa.
Fontes consultadas:
Agência Brasil | Exame | Blog Banco do Brasil | TI Inside | Serpro
