Segundo o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, o debate em torno da saúde mental do idoso ganhou relevância à medida que estudos passaram a associar isolamento social a quadros mais frequentes de depressão e ansiedade nessa faixa etária. Compreender essa interação exige olhar além do diagnóstico clínico isolado, considerando também o ambiente em que o idoso está inserido no dia a dia.
Mudanças significativas na vida adulta avançada, como aposentadoria, perda de entes queridos ou redução de mobilidade, costumam impactar diretamente o equilíbrio emocional. Sem suporte adequado, esses eventos podem desencadear quadros de sofrimento psíquico que passam despercebidos por familiares, justamente por serem confundidos com características naturais do envelhecimento.
Sinais frequentemente negligenciados
Mudanças de apetite, alterações no padrão de sono e afastamento progressivo de atividades antes prazerosas costumam ser interpretados, equivocadamente, como parte natural do envelhecimento. Essa leitura simplificada retarda diagnósticos e, consequentemente, o início de intervenções adequadas. Na avaliação de Yuri Silva Portela, a diferenciação entre sintomas esperados e sinais de adoecimento psíquico exige atenção clínica treinada, já que muitos sintomas se manifestam de forma sutil e progressiva.
Familiares atentos a mudanças de comportamento, ainda que discretas, contribuem significativamente para identificação precoce de quadros que demandam acompanhamento especializado. Essa vigilância, quando exercida com equilíbrio, evita tanto a negligência quanto a superproteção excessiva.
A família consegue substituir o acompanhamento profissional?
Embora o suporte familiar seja determinante para o bem-estar emocional do idoso, ele não pode substituir avaliação e acompanhamento profissional especializado. A presença constante de familiares oferece segurança emocional e reduz sensação de isolamento, mas diagnósticos e condutas terapêuticas exigem conhecimento técnico específico, sobretudo quando há suspeita de quadros depressivos ou demenciais em estágio inicial.
Familiares atentos a mudanças de comportamento, ainda que discretas, contribuem significativamente para identificação precoce de quadros que demandam acompanhamento especializado. Essa vigilância, quando exercida com equilíbrio, evita tanto a negligência quanto a superproteção excessiva.

Sintomas depressivos e quadros iniciais de demência frequentemente se sobrepõem, dificultando diagnósticos rápidos e precisos, refere Yuri Silva Portela. Apatia, lentificação de raciocínio e dificuldades de memória podem aparecer em ambas as condições, exigindo avaliação clínica cuidadosa para diferenciar processos reversíveis de alterações neurodegenerativas mais avançadas.
A combinação entre suporte familiar consistente e acompanhamento clínico regular tende a produzir os melhores resultados, já que cada frente atua sobre dimensões complementares do cuidado. Negligenciar qualquer um desses pilares compromete o equilíbrio necessário para preservar qualidade de vida.
Construindo redes de apoio sustentáveis
Redes de apoio bem estruturadas, formadas por familiares, vizinhos, grupos comunitários e profissionais de saúde, ampliam significativamente a capacidade de identificar e responder a necessidades emocionais do idoso. Ambientes que favorecem participação social, mesmo em pequena escala, ajudam a reduzir sintomas associados à solidão crônica, fator frequentemente relacionado ao declínio cognitivo acelerado.
Yuri Silva Portela tem parte de sua atuação ligada a projetos que fortalecem justamente esse tipo de articulação comunitária, voltados a populações que enfrentam maior vulnerabilidade social. Iniciativas dessa natureza demonstram que o cuidado em saúde mental do idoso ultrapassa o consultório, exigindo articulação contínua entre diferentes esferas da vida social.
A importância dos bons hábitos
Manter uma rotina com propósito, incluindo pequenas tarefas domésticas, hobbies e compromissos sociais regulares, contribui significativamente para a manutenção do equilíbrio emocional na terceira idade. A ausência de atividades estruturadas durante o dia tende a favorecer quadros de apatia e ruminação, especialmente entre idosos que vivem sozinhos.
No fim, como pondera Yuri Silva Portela, o estigma ainda associado a tratamentos psicológicos e psiquiátricos dificulta a busca por ajuda especializada entre idosos de gerações que cresceram sob valores diferentes em relação à saúde mental. Desconstruir essa resistência exige diálogo respeitoso e informação acessível, sem imposição ou julgamento.
Manter diálogo aberto, paciência e disposição para buscar orientação especializada quando necessário fazem diferença real na trajetória emocional de quem envelhece. A atenção contínua da família, somada a suporte técnico adequado, segue como caminho mais consistente para preservar a saúde mental na terceira idade.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
