OpenAI apresenta ao TSE regras para impedir recomendação de voto pelo ChatGPT

Anders Elviksen
Por Anders Elviksen
13 Min de leitura

Plano para as Eleições 2026 prevê neutralidade política, restrições a campanhas em larga escala e monitoramento de possíveis abusos envolvendo inteligência artificial.

A OpenAI apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) seu plano de conformidade para as Eleições Gerais de 2026, detalhando medidas destinadas a reduzir riscos associados ao uso de inteligência artificial durante o processo eleitoral brasileiro. Entre os principais pontos estão barreiras para evitar que o ChatGPT favoreça candidaturas ou indique em quem o usuário deveria votar, restrições ao uso das ferramentas da empresa em campanhas políticas de larga escala e mecanismos destinados a identificar possíveis abusos eleitorais.

O documento foi apresentado no contexto das novas exigências da Justiça Eleitoral para provedores digitais com relevância na produção, distribuição, recomendação ou moderação de conteúdo político-eleitoral. A regulamentação alcança diferentes tipos de serviços, incluindo redes sociais, plataformas de vídeo, serviços de mensageria, mecanismos de busca e chatbots de inteligência artificial generativa. O objetivo é exigir que essas empresas expliquem previamente como pretendem enfrentar riscos específicos durante a eleição.

No caso da OpenAI, o ChatGPT aparece como o principal serviço analisado, embora o plano também considere outras funcionalidades da companhia quando elas se relacionam às exigências eleitorais. A empresa afirma que seus sistemas são orientados a não produzir respostas que favoreçam candidatos, partidos, federações ou coligações e também a não recomendar ou indicar voto aos usuários.

A discussão ganha relevância porque sistemas de IA generativa já conseguem produzir textos, imagens, áudios e outros materiais em poucos segundos. Durante uma eleição, essas ferramentas podem ser utilizadas para atividades legítimas, como explicar propostas ou ajudar o eleitor a compreender conceitos, mas também podem ser exploradas para produzir conteúdo enganoso, imitar pessoas ou automatizar campanhas em escala. É justamente essa fronteira que as novas medidas procuram administrar.

ChatGPT não deve recomendar candidatos ou indicar voto

Um dos pontos centrais do plano é a chamada neutralidade política. Segundo as informações divulgadas pelo TSE, a OpenAI afirma que o ChatGPT é orientado a não gerar respostas que favoreçam candidaturas, partidos, federações ou coligações. O sistema também não deve recomendar ou indicar voto quando solicitado pelo usuário durante o processo eleitoral.

A medida está alinhada às regras eleitorais aplicáveis aos provedores que oferecem sistemas de inteligência artificial. A regulamentação do TSE proíbe que esses serviços ranqueiem, recomendem, sugiram ou priorizem candidaturas, campanhas, partidos, federações ou coligações, além de impedir que emitam preferência eleitoral ou recomendação de voto.

Isso não significa que o ChatGPT esteja impedido de falar sobre política ou eleições. A ferramenta pode fornecer informações, explicar conceitos, comparar propostas de maneira factual e ajudar o usuário a compreender aspectos do processo eleitoral. A diferença está entre apresentar informação e utilizar o sistema para direcionar politicamente a decisão do eleitor.

Essa separação é particularmente importante porque respostas de sistemas de IA podem ser percebidas como recomendações mesmo quando são apresentadas em formato conversacional. Ao estabelecer barreiras específicas para pedidos de indicação eleitoral, a empresa busca impedir que uma ferramenta utilizada para obter informações seja transformada em um mecanismo automatizado de orientação de voto.

Uso da IA em campanhas políticas em larga escala terá restrições

O plano também aborda o uso das ferramentas da OpenAI para produção e distribuição de conteúdo político em grande escala. As políticas citadas no documento proíbem o uso dos sistemas da companhia para gerar ou distribuir massivamente mensagens de campanha favoráveis ou contrárias a candidatos, partidos ou propostas submetidas à votação.

A restrição procura atingir uma das principais preocupações relacionadas à inteligência artificial nas eleições: a possibilidade de automatizar a produção de propaganda em uma escala que seria difícil de alcançar apenas com trabalho humano. Um sistema generativo pode produzir rapidamente milhares de variações de mensagens, imagens e argumentos adaptados para diferentes públicos.

O documento também aborda tentativas de interferência eleitoral, incluindo operações internas ou estrangeiras, além de ações destinadas a desmobilizar eleitores. Isso inclui usos voltados a desencorajar ou impedir o exercício do voto e outras atividades que possam interferir no funcionamento normal do processo eleitoral.

Outro ponto envolve tentativas de apresentar materiais produzidos por inteligência artificial como se tivessem sido criados por pessoas. Com sistemas capazes de gerar imagens, textos e áudios cada vez mais realistas, a identificação da origem do conteúdo passou a ocupar espaço central nas estratégias de integridade das plataformas e nas próprias regras eleitorais.

OpenAI prevê monitoramento de sinais de abuso eleitoral

Além das barreiras aplicadas diretamente às respostas dos sistemas, a OpenAI informou ao TSE que prevê um mecanismo específico de alerta antecipado para as Eleições 2026. Durante o ciclo eleitoral, equipes da empresa deverão observar alterações incomuns em atividades relacionadas ao pleito e outros sinais que possam indicar necessidade de investigação.

Entre os comportamentos citados estão tentativas de produzir materiais eleitorais oficiais falsificados ou supostas evidências enganosas de fraude eleitoral. A preocupação é impedir que ferramentas generativas sejam utilizadas para fabricar conteúdos que aparentem ter origem em instituições ou que sejam apresentados como provas de acontecimentos inexistentes.

O monitoramento também deverá observar aumentos incomuns nas tentativas de personificação de candidatos, autoridades eleitorais e figuras públicas. A capacidade de gerar conteúdo sintético torna possível criar materiais que imitam determinadas características de pessoas reais, aumentando os desafios de identificação de manipulações.

Outro sinal considerado são consultas anômalas relacionadas aos procedimentos de votação. A existência de um alerta, entretanto, não significa automaticamente que determinada atividade será considerada irregular. O objetivo declarado é identificar padrões que justifiquem análise adicional e, quando necessário, permitir investigação e adoção das medidas previstas pelas políticas da empresa.

Revisão humana entra na estratégia para casos mais complexos

A automação não será o único mecanismo utilizado. O plano apresentado ao TSE também menciona processos de revisão humana, especialmente para situações que não podem ser resolvidas adequadamente apenas pelos sistemas automáticos de segurança.

Essa combinação é relevante porque os pedidos feitos a uma inteligência artificial podem variar enormemente. Algumas solicitações apresentam violações evidentes, enquanto outras dependem de contexto para determinar se representam informação legítima, sátira, pesquisa acadêmica, jornalismo ou tentativa de manipulação eleitoral.

A revisão humana funciona como uma camada adicional para situações de maior complexidade. Sistemas automáticos podem identificar padrões e bloquear determinados comportamentos, enquanto equipes especializadas analisam casos que exigem interpretação mais detalhada ou que apresentam sinais de possíveis operações coordenadas.

A própria regulamentação do TSE prevê que planos de conformidade descrevam mecanismos de controle e, em determinadas áreas, hipóteses de revisão humana ou escalonamento especializado. O objetivo é permitir que as medidas sejam verificáveis e não se resumam a declarações genéricas das empresas.

TSE passou a exigir planos específicos das plataformas digitais

As medidas apresentadas pela OpenAI fazem parte de uma estratégia mais ampla da Justiça Eleitoral. A Portaria nº 463/2026, publicada pelo TSE, regulamentou a apresentação e o acompanhamento dos planos de conformidade para as Eleições Gerais de 2026.

A regra alcança provedores com papel relevante na circulação de conteúdo político-eleitoral. Entre as categorias expressamente mencionadas estão redes sociais, mensageria privada, hospedagem de vídeos, mecanismos de busca e chatbots de inteligência artificial generativa. Em determinadas situações, a obrigação considera também o número de usuários ativos mensais no Brasil e o impacto potencial do serviço sobre o processo eleitoral.

Os planos precisam explicar quais medidas serão adotadas, os prazos de implementação, critérios utilizados e mecanismos de controle. A portaria estabelece que compromissos genéricos ou simples declarações de intenção não são suficientes para demonstrar o cumprimento das obrigações.

O TSE informou no início de setembro que os planos apresentados pelas plataformas estavam disponíveis no portal da Justiça Eleitoral. Dessa forma, as medidas podem ser conhecidas publicamente e acompanhadas ao longo do processo eleitoral, enquanto determinadas informações tecnicamente sensíveis podem permanecer sob acesso restrito nos termos previstos pela regulamentação.

IA generativa passa a ter regras específicas durante as eleições

A inclusão explícita dos sistemas de inteligência artificial generativa representa uma mudança importante na maneira como a Justiça Eleitoral trata a tecnologia. Em eleições anteriores, grande parte da preocupação estava concentrada em redes sociais, aplicativos de mensagens e publicidade digital. Agora, chatbots e ferramentas capazes de produzir conteúdo também estão diretamente inseridos na estrutura regulatória.

A Portaria nº 463 determina que os planos abordem a governança dos sistemas de IA capazes de gerar, sintetizar ou modificar conteúdo político-eleitoral. As regras procuram responder a riscos que surgiram com a popularização de modelos generativos, incluindo conteúdos sintéticos, personificações e utilização automatizada dessas ferramentas.

A regulamentação também prevê medidas específicas para o período de vedação eleitoral, incluindo mecanismos relacionados a conteúdos produzidos por inteligência artificial e chatbots ou avatares que não estejam devidamente identificados como tais nas situações abrangidas pelas normas.

Esse cenário coloca o Brasil entre os países que estão tentando estabelecer regras eleitorais específicas para uma tecnologia que evolui rapidamente. O desafio será acompanhar sistemas que podem mudar durante a própria campanha e equilibrar prevenção de abusos com usos legítimos para informação, educação, pesquisa e comunicação.

O que muda para o eleitor que utiliza o ChatGPT?

Para o usuário comum, a consequência mais perceptível é a existência de barreiras contra pedidos que tentem transformar o ChatGPT em um orientador eleitoral. Perguntas informativas sobre candidatos, funcionamento das eleições ou conceitos políticos podem continuar sendo respondidas dentro das políticas aplicáveis, mas solicitações para escolher um candidato ou recomendar voto encontram restrições.

Também existe uma diferença importante entre explicar posições e tomar uma decisão pelo eleitor. Uma ferramenta de IA pode auxiliar na organização de informações públicas ou na compreensão de propostas, mas não deve apresentar uma candidatura como aquela em que a pessoa deveria votar.

O plano também procura reduzir a possibilidade de utilização da tecnologia para fabricar materiais enganosos, personificar candidatos ou automatizar operações políticas em grande escala. Nenhum mecanismo tecnológico elimina completamente a possibilidade de abuso, razão pela qual monitoramento, investigação e atualização das medidas fazem parte do processo.

As Eleições 2026 serão, portanto, um teste importante para a convivência entre inteligência artificial generativa e política no Brasil. O plano apresentado pela OpenAI ao TSE mostra que o debate deixou de ser apenas sobre o que a IA consegue produzir e passou a incluir quais limites devem existir quando essa capacidade encontra uma eleição. A eficácia dessas medidas dependerá de sua aplicação prática, do acompanhamento da Justiça Eleitoral e da capacidade de adaptação diante de novas formas de utilização da tecnologia.

Fontes: TSE — OpenAI prevê barreiras contra recomendação de voto e alerta antecipado · TSE — Portaria nº 463/2026 e regras dos planos de conformidade · TSE — planos de conformidade das plataformas digitais para 2026


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