Brasil precisa reduzir dependência de tecnologias estrangeiras, aponta estudo TICs 2026

Anders Elviksen
Por Anders Elviksen
14 Min de leitura

Levantamento do Observatório Softex mostra avanço da inteligência artificial nas empresas, mas aponta desafios em software, semicondutores, talentos e autonomia digital.

O Brasil está utilizando cada vez mais inteligência artificial, computação em nuvem e outras tecnologias digitais, mas transformar essa adoção em capacidade própria de desenvolvimento continua sendo um dos grandes desafios para a competitividade nacional. Essa é uma das principais conclusões do terceiro caderno do estudo TICs 2026, divulgado pelo Observatório Softex e dedicado às tendências estratégicas de inteligência artificial, semicondutores e práticas ESG.

Os números mostram uma transformação importante dentro das empresas brasileiras. A parcela de companhias que utiliza inteligência artificial passou de 13% em 2024 para 17,5% em 2025. Entre as grandes empresas, a presença da tecnologia chegou a 49,6%, indicando que aproximadamente metade das organizações desse porte analisadas já incorporava alguma aplicação de IA às suas atividades.

O avanço, entretanto, vem acompanhado de uma dependência significativa de tecnologias disponíveis no mercado. Segundo o levantamento, 79,8% das empresas brasileiras que utilizam inteligência artificial recorrem a softwares e sistemas prontos, cenário que ajuda a explicar a preocupação dos pesquisadores com a capacidade do país de transformar consumo tecnológico em desenvolvimento de soluções próprias.

A questão não está limitada à inteligência artificial. O estudo analisa também semicondutores, comércio internacional de serviços digitais, formação profissional e internacionalização das empresas. A conclusão é que o país possui mercado, infraestrutura, conhecimento e empresas capazes de participar de uma economia digital mais sofisticada, mas precisa conectar esses ativos para ampliar inovação, exportações e autonomia tecnológica.

Empresas brasileiras estão adotando mais inteligência artificial

O crescimento da inteligência artificial nas empresas é um dos indicadores mais importantes apresentados pelo estudo. A participação passou de 13% em 2024 para 17,5% em 2025, mostrando que ferramentas antes concentradas em projetos experimentais começam a ganhar espaço dentro das operações empresariais. O movimento acompanha uma tendência internacional de incorporação de IA em atendimento, análise de dados, desenvolvimento de software, automação e processos administrativos.

Entre as grandes empresas, a adoção é muito mais intensa. O índice de 49,6% demonstra que organizações com maior capacidade financeira, equipes especializadas e infraestrutura tecnológica estão avançando mais rapidamente. Essas companhias possuem condições para contratar serviços de nuvem, integrar ferramentas de inteligência artificial aos sistemas existentes e investir em projetos capazes de automatizar atividades complexas.

A diferença entre grandes empresas e o conjunto do mercado também evidencia um desafio. Pequenas e médias companhias podem encontrar dificuldades maiores para adotar inteligência artificial devido a custos, falta de profissionais especializados e ausência de infraestrutura adequada. Outro levantamento do próprio Observatório Softex mostrou que o custo da tecnologia e a escassez de profissionais estão entre as principais barreiras à inovação no setor brasileiro de TIC.

O crescimento da adoção, portanto, representa apenas uma parte da transformação. Para o país obter ganhos mais amplos de produtividade e competitividade, será necessário fazer com que a inteligência artificial chegue a um universo maior de empresas e seja incorporada de maneira capaz de produzir valor econômico, em vez de permanecer restrita a experimentos ou ferramentas isoladas.

Dependência de soluções prontas preocupa setor de tecnologia

Um dos dados que mais chama atenção no TICs 2026 é que 79,8% das empresas que utilizam inteligência artificial recorrem a softwares e sistemas disponíveis no mercado. O número indica predominância de soluções prontas e ajuda a dimensionar a distância entre simplesmente utilizar uma tecnologia e possuir capacidade para desenvolvê-la.

Não existe necessariamente um problema em contratar tecnologias de terceiros. Essa estratégia pode reduzir custos, acelerar projetos e permitir que empresas utilizem ferramentas avançadas sem construir toda a infraestrutura internamente. Serviços de nuvem, softwares corporativos e APIs de inteligência artificial são exemplos de tecnologias que podem aumentar rapidamente a produtividade.

A preocupação surge quando grande parte das capacidades essenciais fica concentrada em fornecedores externos e existe pouca capacidade nacional para desenvolver alternativas. Nesse cenário, mudanças de preços, condições comerciais ou disponibilidade de determinados serviços podem produzir efeitos sobre empresas brasileiras que dependem dessas tecnologias para operar.

Por isso, o Observatório Softex defende que o Brasil transforme a expansão de seu mercado digital em capacidade tecnológica. Isso envolve estimular pesquisa, desenvolvimento, formação de profissionais e empresas capazes de criar soluções próprias, sem significar necessariamente abandonar fornecedores internacionais.

Semicondutores são outro ponto estratégico para o Brasil

O estudo também dedica atenção aos semicondutores, componentes fundamentais para praticamente toda a economia digital. Computadores, smartphones, automóveis, equipamentos industriais, sistemas de telecomunicações e data centers dependem de diferentes categorias de chips, enquanto a expansão da inteligência artificial aumentou especialmente a importância dos processadores de alto desempenho.

A avaliação apresentada pelo Observatório Softex é que o Brasil não reúne, no curto prazo, condições para competir diretamente na fabricação dos chips mais avançados do mundo. Construir fábricas na fronteira tecnológica exige investimentos de bilhões de dólares, equipamentos altamente especializados, cadeias de fornecedores complexas e conhecimento acumulado durante décadas.

Em vez de tentar competir em todos os segmentos simultaneamente, o estudo propõe uma inserção seletiva na cadeia mundial. Entre as áreas mencionadas estão design de chips, prototipagem, sensores e encapsulamento, segmentos nos quais as capacidades existentes no país poderiam ser utilizadas para construir uma participação mais competitiva.

A Lei Brasil Semicon, de 2024, aparece no levantamento como um instrumento de longo prazo para apoiar essa estratégia. O desafio será transformar incentivos e políticas públicas em investimentos, empresas, propriedade intelectual e profissionais capazes de ampliar a participação brasileira em uma cadeia considerada estratégica para a economia digital.

Déficit em serviços de tecnologia pode aumentar até 2030

A dependência tecnológica brasileira também aparece de maneira clara no comércio exterior. Segundo o TICs 2026, o Brasil exportou US$ 6,17 bilhões em serviços de TIC em 2024, enquanto as importações chegaram a US$ 13,33 bilhões. A diferença produziu um déficit de aproximadamente US$ 7,16 bilhões.

Esse resultado significa que o país compra do exterior um volume significativamente maior de serviços tecnológicos do que consegue vender internacionalmente. A conta pode incluir diferentes segmentos ligados à economia digital e mostra que o crescimento do mercado interno não se converte automaticamente em maior presença das empresas brasileiras no mercado mundial.

O estudo projeta que, se a estrutura atual for mantida, esse déficit poderá superar US$ 15,7 bilhões até 2030. Não se trata de uma previsão inevitável, mas de um cenário que demonstra o tamanho do desafio caso o país continue ampliando sua demanda por tecnologia sem aumentar proporcionalmente sua capacidade exportadora.

A internacionalização das empresas brasileiras aparece, por isso, como parte da solução. Desenvolver produtos e serviços capazes de disputar clientes internacionais pode gerar receitas em moeda estrangeira, aumentar a escala das empresas nacionais e reduzir o desequilíbrio existente no comércio de serviços digitais.

Brasil precisa formar profissionais para produzir tecnologia própria

Construir autonomia tecnológica exige mais do que investimentos em máquinas e infraestrutura. É necessário também formar profissionais capazes de desenvolver, adaptar e administrar tecnologias avançadas. Engenheiros de software, especialistas em inteligência artificial, profissionais de cibersegurança, pesquisadores e engenheiros ligados à indústria de semicondutores tornam-se cada vez mais estratégicos.

O segundo caderno do TICs 2026 já havia mostrado a dimensão desse desafio. O Brasil registrou 4.190 cursos superiores de TI em 2024 e formou 109.875 profissionais naquele ano. Ao mesmo tempo, o estudo identificou problemas relacionados à qualidade da formação e à evasão, especialmente no ensino a distância.

A demanda também está mudando rapidamente. Matrículas especificamente relacionadas à inteligência artificial cresceram nos últimos anos, enquanto áreas como defesa cibernética tiveram forte expansão na oferta de vagas. O mercado, porém, precisa de profissionais capazes não apenas de utilizar ferramentas prontas, mas de desenvolver sistemas, construir infraestrutura e realizar pesquisa e desenvolvimento.

Esse ponto é fundamental para reduzir dependências. Um país pode comprar servidores, contratar serviços de nuvem e utilizar modelos estrangeiros, mas sua capacidade de criar tecnologia própria dependerá principalmente da existência de profissionais, universidades, centros de pesquisa e empresas capazes de transformar conhecimento em produtos comercialmente viáveis.

Estudo propõe ações para governo, empresas e ecossistema de inovação

O TICs 2026 não se limita a apresentar o diagnóstico. O documento organiza recomendações destinadas ao governo federal, governos estaduais, setor privado e ecossistema de inovação. A proposta é que esses diferentes atores atuem de maneira complementar para reduzir dependências e aumentar a capacidade tecnológica brasileira.

Para o governo federal, o estudo recomenda uma agenda integrada envolvendo inteligência artificial, dados, nuvem, cibersegurança, software e semicondutores. Também aparecem propostas relacionadas ao uso de compras públicas e encomendas tecnológicas como instrumentos de desenvolvimento, expansão de ambientes de teste e infraestrutura compartilhada e formação de talentos.

Aos governos estaduais, a recomendação é desenvolver políticas conectadas às vocações econômicas regionais e utilizar fundos de inovação para fortalecer ecossistemas emergentes. Já para o setor privado, o estudo sugere investimentos em produtividade, dados, segurança, qualificação profissional e integração de pequenas e médias empresas às cadeias de fornecedores.

O ecossistema de inovação teria, por sua vez, a missão de aproximar pesquisa e mercado, preparar startups para ganhar escala, conectar profissionais às demandas produtivas e ajudar empresas brasileiras a entrar em mercados internacionais. A estratégia procura evitar que pesquisa, indústria e políticas públicas funcionem como iniciativas desconectadas.

Tecnologia própria pode definir próxima etapa da economia digital brasileira

O estudo TICs 2026 mostra um Brasil que já possui uma economia digital de grande escala, mas ainda enfrenta dificuldades para converter essa dimensão em liderança tecnológica. A adoção crescente de inteligência artificial demonstra que empresas estão acompanhando a transformação, enquanto a dependência de soluções disponíveis no mercado evidencia o espaço que ainda existe para desenvolvimento próprio.

O desafio não é construir uma economia tecnologicamente isolada. Cadeias digitais são globais e mesmo as maiores potências dependem de fornecedores internacionais em diferentes etapas. A questão estratégica é evitar dependência excessiva e garantir que o Brasil também consiga produzir conhecimento, software, componentes, serviços e empresas capazes de competir internacionalmente.

Semicondutores, inteligência artificial, nuvem, cibersegurança e formação profissional aparecem como partes de uma mesma estratégia. Avançar em apenas uma dessas áreas pode não ser suficiente se empresas continuarem dependendo de infraestrutura, talentos ou tecnologias essenciais produzidas exclusivamente no exterior.

Os dados do Observatório Softex indicam, portanto, que a próxima etapa da transformação digital brasileira deverá ser diferente da primeira. Depois de ampliar o uso de tecnologia, o desafio passa a ser ampliar a capacidade de produzi-la. A forma como governo, empresas, universidades e startups responderem a essa questão poderá determinar a posição do Brasil nas cadeias tecnológicas globais durante os próximos anos.

Fontes: Softex — terceiro caderno do TICs 2026 e propostas para reduzir a dependência tecnológica · Observatório Softex — Estudo TICs 2026 · Softex — avanços e gargalos da inovação em TIC no Brasil


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