Infraestrutura importada, baixa participação no mercado mundial de data centers e falta de profissionais especializados expõem desafios do país para conquistar maior autonomia na corrida global pela IA
O avanço da inteligência artificial está transformando empresas, serviços públicos e a rotina dos brasileiros, mas existe uma infraestrutura pouco visível por trás dessa revolução. Grande parte da capacidade computacional necessária para armazenar dados, treinar modelos e executar sistemas avançados ainda depende de equipamentos e estruturas localizados fora do Brasil.
Dados apresentados nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, por Eduardo Glazar, CSO da Globalsys, indicam que aproximadamente 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior. O executivo também afirma que o país representa apenas cerca de 2% do mercado mundial de data centers. (BRA 1)
Outro ponto crítico está nos equipamentos. Segundo Glazar, todas as GPUs utilizadas no Brasil são importadas. Esses chips de alto desempenho tornaram-se peças fundamentais para o desenvolvimento da inteligência artificial, principalmente para treinamento e execução de modelos generativos. (BRA 1)
Por que as GPUs são tão importantes para a inteligência artificial?
As GPUs, ou unidades de processamento gráfico, ganharam importância porque conseguem realizar grandes quantidades de cálculos simultaneamente. Embora tenham sido originalmente desenvolvidas principalmente para processamento gráfico, hoje são fundamentais para aplicações avançadas de IA.
Treinar grandes modelos exige milhares desses processadores trabalhando em conjunto durante períodos prolongados. Isso transformou os chips avançados em ativos estratégicos e colocou fabricantes e fornecedores de infraestrutura no centro da corrida mundial pela inteligência artificial.
Para o Brasil, depender integralmente da importação desses componentes significa estar sujeito a preços internacionais, disponibilidade global, câmbio e eventuais restrições comerciais ou geopolíticas.
A questão ganhou ainda mais relevância porque investimentos mundiais em infraestrutura de IA atingiram dimensões gigantescas. Nesta semana, por exemplo, foi noticiado que a Nvidia negocia com grandes instituições financeiras um pacote potencial de centenas de bilhões de dólares destinado a financiar chips, energia e data centers. (Jornal do Brasil)
Data centers são nova infraestrutura estratégica
Se as GPUs funcionam como motores da inteligência artificial, os data centers são as estruturas que abrigam esses equipamentos.
Esses centros concentram servidores, sistemas de armazenamento, redes de alta velocidade, equipamentos de refrigeração e sistemas de fornecimento energético necessários para manter serviços digitais funcionando continuamente.
Com a expansão da IA generativa, a demanda por essa infraestrutura aumentou significativamente. Sistemas capazes de gerar textos, imagens, vídeos, códigos e análises complexas exigem capacidade computacional muito superior à de diversas aplicações tradicionais.
Por isso, data centers estão deixando de ser vistos apenas como infraestrutura técnica e passando a ocupar uma posição estratégica semelhante à de redes de telecomunicações e energia.
Soberania digital entra no centro do debate
A dependência externa também provoca uma discussão sobre soberania digital e computacional.
Na prática, soberania computacional significa possuir capacidade suficiente para executar sistemas estratégicos dentro do próprio país e reduzir a vulnerabilidade provocada pela dependência excessiva de infraestrutura estrangeira.
O tema ganhou força no Brasil nos últimos dias. Análise publicada em 7 de agosto destacou que decisões tomadas no exterior podem afetar o acesso brasileiro a tecnologias críticas, aumentando a importância de infraestrutura computacional própria. (Exame)
O presidente da Dataprev, Rodrigo Assumpção, também defendeu recentemente uma ampliação da ambição brasileira nessa área. Segundo ele, o país precisa acelerar investimentos em energia, data centers e infraestrutura nacional de dados, porque essas estruturas levam anos para serem planejadas e construídas. (Capital Digital)
Dependência não está apenas nos equipamentos
Outro obstáculo brasileiro aparece na formação de profissionais.
Segundo os dados apresentados por Glazar, o Brasil forma aproximadamente 53 mil profissionais de tecnologia por ano, enquanto a demanda anual ultrapassaria 150 mil vagas. Mantida essa diferença, a projeção apresentada aponta para déficit acumulado superior a 500 mil profissionais até 2029. (BRA 1)
Essa falta de trabalhadores especializados pode limitar a expansão da inteligência artificial mesmo que novos investimentos em infraestrutura sejam realizados.
Não basta construir data centers e importar processadores. É necessário contar com engenheiros, cientistas de dados, especialistas em segurança, desenvolvedores, pesquisadores e profissionais capazes de operar sistemas complexos.
Brasil tem vantagens para receber novos data centers
Apesar dos desafios, o país possui características que podem favorecer a expansão dessa indústria.
Uma delas é a matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis. Como data centers consomem grandes quantidades de energia, disponibilidade e origem da eletricidade tornaram-se fatores importantes na decisão sobre onde instalar essas estruturas.
Especialistas reunidos nesta semana no evento SP2B, em São Paulo, também apontaram que o Brasil possui condições estratégicas para receber novos data centers e aproveitar a IA em setores nos quais o país já apresenta grande relevância econômica, como agronegócio e mineração. (UOL Economia)
O país também possui um grande mercado consumidor digital. Bancos, varejistas, indústrias, governos e startups brasileiros estão aumentando a utilização de ferramentas baseadas em inteligência artificial.
Essa combinação cria demanda interna suficiente para justificar novos investimentos.
Energia passa a ser parte da corrida pela IA
Um dos grandes desafios será fornecer eletricidade para essa expansão.
Data centers destinados à inteligência artificial podem consumir volumes muito elevados de energia porque milhares de processadores trabalham continuamente e ainda precisam de sistemas eficientes de refrigeração.
Isso significa que a corrida pela IA não envolve somente software. Redes elétricas, geração energética, linhas de transmissão, água e disponibilidade de terrenos passam a fazer parte da equação.
O próprio Senado brasileiro já debate a necessidade de estabelecer regras para a expansão de data centers utilizados por sistemas de inteligência artificial, incluindo seus impactos econômicos e de infraestrutura. (Senado Federal)
Processar dados no Brasil pode trazer benefícios econômicos
Aumentar a capacidade nacional de processamento pode gerar efeitos que ultrapassam o setor tecnológico.
A instalação de data centers movimenta construção civil, engenharia, telecomunicações, energia, segurança digital e serviços especializados. Também pode estimular empresas que desenvolvem soluções de nuvem, software e inteligência artificial.
Há ainda uma questão relacionada aos próprios dados.
Na economia digital, grandes volumes de informações podem se transformar em ativos estratégicos. Quanto maior a capacidade de armazenar e processar esses dados localmente, maiores podem ser as possibilidades de desenvolver serviços e modelos adaptados à realidade brasileira.
Especialistas reunidos no SP2B nesta semana chegaram a comparar os dados ao “petróleo” da era da inteligência artificial, destacando seu papel na transformação dos modelos de negócios. (UOL Economia)
Empresas brasileiras também enfrentam o desafio
A dependência de infraestrutura estrangeira não é uma questão restrita ao governo.
Empresas brasileiras que utilizam modelos avançados de IA frequentemente dependem de serviços de nuvem, chips, modelos e plataformas desenvolvidos por companhias internacionais.
Para pequenas empresas e startups, construir infraestrutura própria geralmente é inviável. A alternativa costuma ser contratar capacidade computacional de grandes provedores.
Esse modelo facilitou enormemente a adoção da inteligência artificial, mas também cria dependências relacionadas a preços, disponibilidade e regras estabelecidas por fornecedores internacionais.
Brasil precisa transformar consumo em capacidade tecnológica
O país já possui milhões de consumidores utilizando inteligência artificial. O próximo desafio é aumentar sua participação na infraestrutura que torna esses serviços possíveis.
Isso envolve atrair investimentos em data centers, desenvolver capacidade energética, formar profissionais e ampliar pesquisa científica e tecnológica.
Também significa fortalecer empresas brasileiras capazes de participar da cadeia de valor da inteligência artificial, evitando que o país ocupe apenas a posição de consumidor de tecnologias produzidas no exterior.
A dimensão dessa corrida está crescendo rapidamente. Grandes empresas globais investem centenas de bilhões de dólares em chips, servidores e energia, enquanto governos começam a tratar capacidade computacional como questão estratégica.
O desafio da IA brasileira vai além dos algoritmos
O debate sobre inteligência artificial costuma se concentrar nos modelos mais recentes e nas ferramentas que chegam aos usuários. Porém, o futuro da tecnologia também será decidido pela infraestrutura física que existe por trás desses sistemas.
O Brasil possui vantagens relevantes, incluindo mercado consumidor, capacidade de geração renovável de energia e setores econômicos que podem se beneficiar intensamente da IA.
Ao mesmo tempo, os números apresentados nesta quarta-feira revelam vulnerabilidades importantes: cerca de 60% das cargas digitais brasileiras são processadas no exterior, o país possui participação pequena no mercado global de data centers e depende da importação de GPUs. (BRA 1)
Reduzir essa dependência não significa necessariamente produzir todos os componentes dentro do território nacional. O objetivo mais realista é ampliar a capacidade instalada, diversificar fornecedores, formar profissionais e garantir que serviços considerados estratégicos possam operar com maior autonomia.
Na corrida mundial pela inteligência artificial, portanto, possuir bons algoritmos será apenas uma parte do desafio. Energia, chips, data centers, profissionais qualificados e controle sobre infraestrutura digital serão igualmente importantes para determinar o espaço que o Brasil ocupará na nova economia tecnológica.
Fontes:
BRA1 — Brasil ainda depende do exterior para processar dados de IA
Exame — IA no Brasil: soberania computacional virou prioridade
Capital Digital — debate sobre infraestrutura nacional para inteligência artificial
Senado Federal — expansão de data centers e necessidade de regras no Brasil
