Dados do Google mostram que o Brasil apresenta adoção de IA acima do esperado para seu nível de renda, enquanto ferramentas passam a apoiar atividades profissionais que vão do trabalho administrativo ao diagnóstico de equipamentos
A inteligência artificial está ampliando sua presença no mercado de trabalho brasileiro e já aparece em atividades que vão além dos escritórios e das profissões tradicionalmente associadas à tecnologia. Dados atualizados pelo Google no AI & Economy ATLAS, estudo que acompanha o uso de ferramentas de inteligência artificial em diferentes países, mostram que o Brasil apresenta uma taxa de adoção superior à que seria esperada considerando seu nível de renda. O levantamento reúne dados agregados e anonimizados de interações com ferramentas de IA do Google em mais de 150 países.
Um dos pontos destacados na atualização de setembro é a presença da IA também em tarefas manuais e técnicas. No Brasil, 7% do uso profissional de IA observado pelo estudo está relacionado a tarefas manuais, como diagnóstico de equipamentos e solução de problemas em tempo real. O percentual é 1,4 vez superior à média global identificada pelo levantamento. O dado não significa que 7% de todo o trabalho realizado no país seja feito com inteligência artificial, mas representa a participação dessas atividades dentro do conjunto de usos profissionais de IA capturados pelo estudo.
Brasil apresenta adoção de IA acima do esperado
O AI & Economy ATLAS foi criado pelo Google para analisar como pessoas utilizam inteligência artificial em atividades profissionais e cotidianas. A primeira versão do levantamento reuniu 15 milhões de interações agregadas e anonimizadas, abrangendo mais de 150 países, 140 idiomas, 800 ocupações e 4 mil tipos de tarefas. A proposta é observar como as ferramentas estão sendo incorporadas ao trabalho real, em vez de considerar apenas projeções sobre o futuro da tecnologia.
Segundo a atualização mais recente, a adoção de IA normalmente apresenta relação com o nível de renda dos países, mas o Brasil aparece entre as exceções. O país registra utilização de ferramentas de inteligência artificial acima do que seria previsto a partir de seu Produto Interno Bruto per capita. A informação coloca o mercado brasileiro entre os exemplos de economias nas quais a utilização das ferramentas digitais avança mesmo diante de limitações econômicas e estruturais.
O levantamento também mostra que a utilização profissional da IA não está concentrada exclusivamente em programadores, profissionais de tecnologia ou trabalhadores altamente especializados. Diferentes categorias ocupacionais aparecem nos dados, mostrando que as ferramentas podem ser usadas para atividades como busca de informações, aprendizado, elaboração de ideias, estratégia e apoio à execução de tarefas.
Esse cenário indica uma mudança na maneira como a inteligência artificial participa das rotinas profissionais. Em vez de necessariamente substituir uma atividade inteira, as ferramentas são frequentemente utilizadas como apoio para determinadas etapas do trabalho. O próprio ATLAS aponta que a maior parte das interações profissionais analisadas está relacionada à colaboração e assistência, enquanto a automação completa das tarefas ainda representa uma parcela menor.
Inteligência artificial chega a atividades manuais e técnicas
Um dos aspectos mais relevantes dos dados brasileiros é a presença da inteligência artificial em ocupações que envolvem atividades práticas. O levantamento identifica utilização de IA para diagnóstico de equipamentos em tempo real e resolução de problemas, mostrando que os recursos conversacionais e multimodais também podem funcionar como ferramentas de apoio para profissionais que trabalham diretamente com máquinas, veículos e equipamentos industriais.
O estudo cita, em sua análise global, exemplos de trabalhadores como técnicos automotivos e mecânicos industriais utilizando ferramentas de IA para interpretar resultados de testes, identificar problemas em sistemas elétricos e compreender sinais de desgaste em máquinas. Nesses ambientes, a inteligência artificial pode atuar como uma espécie de suporte técnico durante a execução de uma tarefa, ajudando o profissional a consultar informações e avaliar diferentes possibilidades.
No Brasil, o percentual de 7% de uso profissional de IA associado a tarefas manuais chama atenção justamente porque demonstra que a tecnologia não está restrita ao trabalho intelectual realizado diante de um computador. O resultado também sugere que aplicações de inteligência artificial podem alcançar setores industriais, manutenção, serviços técnicos e outras áreas nas quais a tomada de decisão depende da combinação entre conhecimento profissional e informações obtidas no momento da atividade.
Outro elemento identificado pelo Google é o uso maior de recursos multimodais entre trabalhadores de ocupações predominantemente manuais e técnicas. Segundo a pesquisa, quando esses profissionais utilizam ferramentas de IA, apresentam maior probabilidade de recorrer a recursos capazes de trabalhar com imagens e vídeos. Isso abre espaço para aplicações nas quais uma câmera, fotografia ou vídeo pode complementar a descrição de um problema.
IA passa a apoiar diferentes etapas do trabalho
Apesar do avanço observado, os dados do ATLAS não indicam que a inteligência artificial esteja simplesmente substituindo trabalhadores em larga escala. A pesquisa aponta que a utilização profissional ocorre principalmente como apoio a determinadas tarefas. Ideação, estratégia, recuperação de informações e aprendizado estão entre os usos identificados, enquanto menos de 10% das interações profissionais analisadas resultaram em automação completa de tarefas.
Essa característica ajuda a explicar por que a adoção pode crescer rapidamente mesmo quando a substituição de empregos não ocorre na mesma proporção. Um profissional pode utilizar uma ferramenta de IA para pesquisar informações, revisar um documento, interpretar dados, organizar uma atividade ou solucionar um problema específico sem deixar de executar a maior parte das etapas de seu trabalho.
A utilização também varia de acordo com a profissão e a região. O levantamento mostra que, em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, ocupações ligadas à computação, matemática e operações empresariais e financeiras estão entre as que mais utilizam IA. Já em países que não pertencem à organização, aparecem com destaque atividades administrativas, artes, design, entretenimento, esportes, mídia e educação.
Para o mercado brasileiro, os dados indicam que a expansão da IA envolve tanto atividades intelectuais quanto tarefas técnicas. Isso pode aumentar a importância da capacitação profissional para que trabalhadores compreendam como utilizar essas ferramentas, verificar seus resultados e incorporá-las aos processos de trabalho de maneira adequada. O próprio Google ressalta que o impacto econômico da IA não é automático e depende de mudanças nos processos e na forma como as organizações estruturam o trabalho.
A atualização do AI & Economy ATLAS mostra que a inteligência artificial já faz parte de diferentes ambientes profissionais no Brasil. A adoção acima do esperado para o nível de renda do país e a presença da tecnologia em tarefas manuais e técnicas indicam que o fenômeno não está limitado ao setor de tecnologia.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que a principal característica atual é o uso da IA como ferramenta de apoio. Em muitas situações, a tecnologia complementa o trabalho humano em vez de automatizar completamente uma ocupação. Para empresas e profissionais, isso coloca em evidência a necessidade de desenvolver novas formas de capacitação, avaliação das informações produzidas pelas ferramentas e integração da IA às rotinas existentes.
Fontes: Google — AI & Economy ATLAS: New insights · Google — Understanding the AI economy
